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quarta-feira, 29 de junho de 2022

MAIO, ANTES QUE VOCÊ ME ESQUEÇA

Ilvio Amaral e Maurício Canguçu
Foto de Raquel Guerra

Quem acompanha minimamente esse blog já conhece a ladainha, mas vou repetir o que sempre digo quando o texto pode ter meio que a cara de uma “crítica”. Não tenho essa pretensão, nem mesmo a formação para ser crítico de artes. Toda vez que falo de uma peça, um filme ou mesmo um livro, estou falando como mero espectador, com o único diferencial de ter estado muitas vezes “do outro lado do balcão”, seja como produtor, diretor, dramaturgo ou escritor. Isso talvez influencie o meu jeito de consumir arte, alguém mais observador, técnico e com olhar de aprendiz. Sim, porque observar tecnicamente meus colegas foi o meu maior aprendizado e o que me permitiu um dia pular pro outro lado do tal balcão.

Bom, a intenção hoje não é falar de mim, mas contar como foi assistir a “Maio, Antes Que Você Me Esqueça”, peça em cartaz no Teatro da Biblioteca Pública, na nossa maravilhosa Praça da Liberdade, aqui em Beagá. Estou escrevendo na expectativa de motivar você a fazer essa mesma imersão e acredito que o público que vai ao teatro e se informa antes de fazer suas escolhas não quer saber de muita explicação ou justificativa. Muito menos de spoiler. Seja em busca de lazer ou reflexão, acho que o interesse primordial está na emoção, no potencial de envolvimento e transformação que o espetáculo reserva.

Direto ao ponto, posso começar dizendo que "Maio, Antes Que Você Me Esqueça” é um espetáculo necessário ao tratar de tema como Alzheimer, provavelmente a mais popular no rol das demências senis cada vez mais presentes em uma sociedade que envelhece. Infelizmente esse benefício da longevidade não é diretamente proporcional à saúde mental da população. É cada vez mais difícil encontrar qualquer grupo familiar ou afetivo onde esse não seja assunto recorrente. É, precisamos falar sobre isso, não há como varrer pra debaixo do tapete algo tão urgente. Nesse aspecto precisa ser destacada a figura do autor e também diretor da peça. Jair Raso é a pessoa certa no lugar certo. Respeitado médico neurocirurgião, une a capacidade e conhecimento científico do profissional de saúde à sensibilidade do artista, conduzindo a história com emoção e verdade.

Aliás, verdade pode ser a palavra chave do espetáculo, uma vez que o seu ponto alto está justamente nas interpretações realistas. Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, ícones da comédia no Brasil, mostram a mesma boa forma ao se envolver na representação de um drama. Claro que o espetáculo apresenta momentos de alívio cômico, ambiente onde eles são mestres absolutos, mas não é esse o movimento principal da peça. "Maio, Antes Que Você Me Esqueça" é primordialmente um drama, por vezes até pesado. Não tem como ser diferente disso diante da responsabilidade de abordar tão grave problema social e de saúde.

Evitando os spoilers, a descrição do que acontece em cena pode ser resumida como um acerto de contas entre pai e filho na oportunidade em que são obrigados a passar a noite juntos. 

Maurício Canguçu faz o filho, um poço de ressentimentos que se desdobra em emoções conflitantes. Suas contradições emotivas, ao passar a limpo as mágoas de uma vida inteira diante de alguém agora tão fragilizado e dependente, comove e por vezes assusta o público justamente pela verdade que a sua atuação imprime.

Ilvio Amaral é o surpreendente pai em cena. Todo o vigor do ator se recolhe para dar lugar ao homem frágil e confuso, que busca encontrar algum sentido no momento atual enquanto vive o passado com desconcertante lucidez. É com certeza uma das melhores, senão a melhor composição de personagem idoso que eu já vi. No teatro, o "velho" pode facilmente virar uma caricatura, mas Ilvio dribla essa possibilidade com interpretação detalhista, milimetricamente executada. 

É isso, Ilvio e Maurício nos fazem acreditar naquele embate cênico e a "verdade", palavra chave do espetáculo, revela-se mesmo o maior mérito de "Maio, Antes Que Você Me Esqueça". 

E aí, deu certo? Atingi o meu propósito motivador? Ficou a fim de ver? Então não perde tempo, esse o último final de semana da temporada no Teatro da Biblioteca Pública. Depois, vai saber quando é que volta em cartaz. Olha que a agenda dessa dupla não é mole não viu... Anota aí, sexta e sábado às 21h e domingo às 19h.  

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

A ARTE DA CONVIVÊNCIA

Marcus Labatti, Gustavo Werneck e Alexandre Toledo, elenco de ARTE
Como já disse e repeti exaustivamente nesse blog, não sou crítico de nada. De cinema, literatura, teatro... absolutamente nada. Não me sinto qualificado pra nada disso e nem tenho uma formação adequada pra exercer este papel.

Mas, sou um consumidor - menos do que já fui e menos do que gostaria - mas, ainda assim, um consumidor atento, com o bônus de já ter estado, e muito, do outro lado do balcão. Produzi bastante na área cultural, sobretudo teatro. Até me orgulho de ter participação em alguns sucessos, seja como produtor, diretor ou autor.

Introdução como sempre grande e repetida pra só então entrar no assunto: O espetáculo ARTE, em cartaz no Teatro da Cidade, em Beaga, agora na programação da Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Queria ter escrito aqui no blog assim que assisti (na estreia), mas a nossa velha conhecida procrastinação empurrou até hoje. Escrever no calor da emoção é bem mais legal, ainda mais pra quem só pode mesmo se basear e se motivar na emoção, pelos motivos já citados acima.

Enfim, ARTE tem como mote uma discussão meio clichê em artes plásticas. Afinal, o que é arte? O que qualifica uma obra valer milhões e outras tantas serem comercializadas apenas cobrindo o preço da tela e da tinta? Se meu filho de cinco anos pode fazer  igual, porque esse desenho do Picasso custa tão caro?

Pessoalmente, acho que no espetáculo essa discussão é apenas o estopim pra algo muito mais cotidiano e que, por ser tão cotidiano, encontra total identificação com a plateia. A ARTE tratada em cena é outra. No palco, três atores nos falam da arte dos relacionamentos, das amizades, e das pinceladas de verniz que cobrem toda convivência.

Sem dar spoiler, pois isso faz parte da divulgação e pode ser lido em qualquer release, a história começa com a compra de um quadro por um dos personagens, que paga por ele um valor altíssimo. Pequeno detalhe: Este quadro é totalmente branco. Movido pelo perigosíssimo “sincerídio”, o primeiro amigo para quem ele orgulhosamente apresenta a obra resolve dar a sua opinião verdadeira. E essa verdade vem adornada por extrema agressividade. O segundo amigo torna-se o fiel da balança. Vamos lá, vamos ver o que ele acha. E aí, sabe aquela pessoa vaselina? Pois é, forma-se então o cabo de guerra num triângulo nada amoroso.

Eu sei que não existe esse gênero, mas pra mim ARTE poderia ser definida como uma “comédia chic”. Comédia porque a gente ri da primeira à última cena, um riso de identificação, de se perceber nas situações apresentadas, e “chic” porque o humor vem embalado numa certa “erudição”. No desenvolvimento da peça, os ânimos vão se exaltando de maneira tal que o verniz social acaba não resistindo a tantas trincas e o pau quebra com força. Embora em nenhum momento o texto identifique de onde surgiu a tripla amizade (que já dura 20 anos) muita roupa suja precisa ser lavada e a discordância sobre o quadro abre a torneira.

Esse humor, com a dose referida de complexidade, é bem realizado e catártico graças ao trabalho harmônico dos três atores que compõe o elenco. Gustavo Werneck, Alexandre Toledo e Marcus Labatti se revezam no protagonismo, cada um com seus momentos de condução da ação. Aí também dá pra sentir a mão experiente do diretor Sérgio Abritta, cujo maior mérito no espetáculo talvez seja ter conseguido nivelar as interpretações com a régua bem no alto, não deixando que se criasse nenhuma brecha ou escorregão, as famosas “barrigas” tão comuns no andamento cênico.

Pra entender melhor todo o jogo, só indo ver de perto. Recomendo demais e alerto que você não precisa ter medo de uma enfadonha discussão "teórica socioantropológica". Nada disso. Você vai é se deparar com a sua própria vida e os encantos e desencantos da convivência entre amigos. Seus amigos.

Onde? Teatro da Cidade, de quinta a domingo, do dia 30/01 a 16/02. Quinta a sábado ás 20:30 e domingo às 19h.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

BATE CORAÇÃO - UM COMBO DE EMOÇÕES


Quem me segue em algum lugar das redes sociais já sabe, mas é sempre bom repetir: Não tenho a pretensão de ser “crítico” de nada - de teatro, de literatura e muito menos cinema. Não tenho, vamos dizer, a “bagagem” acadêmica necessária para me autodenominar assim. Sou apenas um apreciador, com a vantagem de já ter estado, e muito, do outro lado do balcão. Já produzi muito daquilo que, atualmente, sou um mero consumidor.

Introdução longa pra justificar o necessário retorno a esse blog. Motivo simples:  sai de casa e me senti impelido a escrever sobre o que vivi. A história toda começa na segunda feira com um convite pra ir ao cinema, em uma pré estreia. Quer programa melhor?

Confesso que aceitei com a menor das expectativas. Esperava apenas o encontro com velhos amigos, uma noite divertida para compartilhar afetos. Mas, depois que as luzes se apagaram... Preciso contar que nessa hora começou o turbilhão de emoções que, sinceramente, eu não esperava nem de longe viver nesse programinha absolutamente corriqueiro.

Sem spoiler, vou me ater somente ao que pode ser lido em qualquer sinopse. Bate Coração fala de doação de órgãos, gratidão (e ingratidão), propósito, missão, romance, amizades e família, em suas atuais e variadas configurações.

A sessão começa com risos frouxos da plateia, de certa forma confirmando as minhas baixas expectativas iniciais. Travestis em cena sempre carregam essa força, de provocar o riso, embora muitas vezes manchado com as marcas do preconceito. Porem, um olhar mais atento me alertou – tem coisa aí... A beleza daqueles rostos se movimentando na tela sussurrava a sutileza com que esse riso fácil seria tratado.

Não deu outra. A sequência (de novo gente, sem alerta de spoiler porque vou evitar queimar na largada) vem como uma avalanche. Mas uma avalanche que não atropela, pelo contrário, empurra carinhosamente para o campo do entendimento e encanto da diversidade, da necessária compreensão que o mundo é de todos e que o comando precisa – sempre – estar nas mãos do amor.

As gargalhadas continuam, fortes. Afinal, estamos numa comédia feita por profissionais experientes do riso. Mas este riso agora não é mais aquele frouxo. Está quadro a quadro se enriquecendo de conteúdo e já esqueceu lá trás toda a carga de preconceitos.  Junto dele, presenciamos também soluços na plateia. É gente demais enxugando discretamente os olhos, afinal, rir em público é mais fácil do que chorar.

Bate Coração é por vezes, muitas vezes, panfletário e didático. Confesso que atualmente concordo que muitas vezes é preciso ser assim. Anda bem difícil transmitir mensagens importantes usando as entrelinhas e, certamente, esta é uma evidente função deste filme. Contribuir com a informação e educação na construção de um mundo melhor. Mas, a qualidade da direção e elenco conseguem atender a estes objetivos sem perder a sua principal característica, de ser o condutor do combo de emoções que transportam a plateia do riso ao choro numa sequência que não deixa ninguém descansar na cadeira.

Enfim, Bate Coração é um filme para “toda família”, por mais antipático que me soe esse bordão, exaustivamente repetido na divulgação de filmes brasileiros. Entretanto, sou obrigado a usá-lo pra dizer da importância de se disseminar a sua mensagem do bem pra todo mundo, e deixar claro que qualquer pessoa pode assistir sem riscos de se sentir agredida.

Então, escolha uma sala de cinema perto de você e vá. Se a grana tá curta, sempre dá pra achar alguma sessão ou ingresso promocional mais baratinho. Vale a pena pesquisar. Até porque Bate Coração não é um filme que merece e deve ser visto. Bate Coração é um filme que PRECISA ser visto. Depois você me conta (e me agradece a dica).